Pedro Miguel Carreiro Resendes – mais conhecido como «Pauleta» – nasceu em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel – Açores, a 28/04/1973. É um ex-jogador profissional de futebol, sendo o segundo melhor marcador/goleador na história da Seleção Nacional principal. Jogou nos campeonatos português, espanhol e francês. Em 2015, foi eleito o terceiro melhor jogador do séc. XXI em França, onde jogou 8 anos, numa votação do canal ‘Eurosport’. Na FPF, foi durante 12 anos e até 2025, diretor da formação nas seleções. Atualmente, é embaixador do Paris Saint-Germain e fundador-diretor de uma escola de futebol/formação em São Miguel.
Começando pelo facto de seres açoriano, sentes que pela distância das ilhas ao continente isso te criou, na juventude, dificuldades profissionais, ou não, da forma como desejarias que fosse?
Sim, claramente. Ainda para mais na altura em que comecei a minha carreira. Estar nos Açores há 30 anos, comparado com agora, as ilhas estavam muito longe e as dificuldades de mobilidade eram muitas e as oportunidades eram poucas. Portanto, sempre o foi e ainda continua para os seres ilhéus.
O ter um instinto goleador e outro habilidoso, como os que tinhas, é algo que treinaste muito para os teres ou era algo inato em ti, de improviso? Se bem que o improviso é também uma arte treinada…
Acho que o facto de se ser goleador nasce com a pessoa. Depois é óbvio que é preciso gerir, melhorar e aperfeiçoar a tua forma de jogar, a técnica e a tua forma de finalizar. Mas o cheiro a golo e o verdadeiro número «9» é algo que já de dentro e de trás. No meu caso, tenho a certeza que é algo que nasceu.
Usando esta gíria e passando-a para a vida em geral, onde sentes que falham mais estes golos e os goleadores? Como poderia ter a nossa sociedade mais sucesso?
Isso é como tudo na vida. Tem de haver mais respeito, educação, lealdade. Se tens tudo isso com trabalho, estarás mais perto do sucesso, de fazer todas as coisas bem e estarás mais perto de ser um ser humano melhor. Infelizmente, no mundo, as coisas são cada vez mais complicadas e cada vez mais difíceis. Há menos educação e menos respeito. As pessoas querem chegar e atingir objetivos sem lutar por eles. Por isso, e com tudo isso, o mundo torna-se da maneira como está.
E que significado tem para ti seres considerado o melhor jogador de sempre no Paris Saint-Germain e o quinto maior goleador da história desse clube, nesse lustro de melhor fase da tua carreira?
Isso é muito subjetivo. E, para já, ser considerado o melhor jogador da história do Paris Saint-Germain (PSG) eu não acredito que o seja! E tenho a certeza que não fui. A determinada altura, eu estava muito bem fisicamente e fiz muitos golos nesse clube. Mas escolher um jogador como “o melhor de sempre” é difícil e é errado. Há certas alturas da nossa vida, mesmo futebolística, que podemos estar melhores ou podemos estar piores. Mas atrás de mim houve enormes jogadores e depois de mim, também. Basta ver a facilidade que o PSG tem em buscar e contratar os melhores jogadores. E de há muito tempo.
Sentias maior pressão, responsabilidade e nervosismo ao envergares a camisola das Quinas ou tais atitudes eram as mesmas jogando nos clubes que representaste?
Não, a pressão, responsabilidade e nervosismo eram os mesmos em qualquer situação. Agora, o orgulho de representar Portugal, o teu país, é um orgulho e um sentimento bem diferente e mais notório. Quanto à pressão de marcar golos eu vivia bem com ela, por estar habituado a ela. Era eu próprio que me submetia a essa pressão, no sentido de que queria marcar em todos os jogos que jogava. Um jogo de futebol sem golos não é a mesma coisa e para mim, se eu não marcasse, também não era a mesma coisa. Portanto, com essa auto-pressão, umas vezes corria melhor do que outras.
Durante 9 anos foste o recordista histórico de golos pela seleção nacional. Como reagiste quando perdeste esse recorde, passando para o segundo lugar?
Reagi de forma natural, da mesma forma quando bati o recorde que já durava há muitos anos aos pés do Eusébio, aquele que foi considerado o melhor jogador do futebol português. E, depois, vendo o recorde ser batido por quem é – o melhor ou um dos melhores da história mundial do futebol – senti-me contente. E, igualmente, orgulho por estar nos três melhores marcadores/goleadores da história do futebol português, sendo que o Luís Figo está em quarto. Como não ficar orgulhoso em ser o segundo melhor a esse nível?
Como dizias, não foste batido por um jogador qualquer, mas por aquele que é o melhor Português de todos os tempos e do mundo: o Cristiano Ronaldo. De que forma o descreves e a tua relação pessoal com ele?
É uma relação boa entre ambos. Tivemos a oportunidade de jogar juntos durante quatro anos, conheço-o bem. Ele era bastante miúdo quando chegou à Seleção e eu já lá estava. Depois fez e continua a fazer uma carreira em que não há palavras para descrever! Ele bate todos os recordes que são possíveis bater. Enquanto portugueses, só temos de nos sentir orgulhosos! Eu sinto um enorme orgulho nele, pela pessoa que é e pelo jogador que ainda mostra ser. Curiosamente, nesse período em que estivemos juntos a Seleção esteve representada por inteiro, por continentais e por dois membros desse dois arquipélagos distintos, Açores e Madeira. A este mais alto nível nunca tinha acontecido.
Que prognóstico e expectativas tens para o Mundial de Futebol deste ano, para Portugal e não só, e o desgaste que o mesmo terá nas deslocações entre três países muito extensos?
Considero que ainda é muito cedo para fazer quaisquer previsões, para falar em favoritos e em quem vai ser surpresa ou não, porque não sabemos como os jogadores vão chegar lá, no final das suas épocas, após o cansaço e desgaste normal dos campeonatos, taças dos seus países e as provas a nível continental. Mas a nossa Seleção tem um grupo de jogadores de enorme qualidade. Portanto, acredito que iremos fazer parte do lote de cinco-seis seleções com o objetivo de vencer o Mundial. Nós iremos integrar esse lote. Agora sabemos que o Mundial em si é uma competição bastante difícil e é preciso estar-se muito bem ora fisicamente ora mentalmente. Como referiste, e bem, há ainda essas deslocações internas entre países, o que ajudará àquelas seleções que se adaptarem melhor e com os jogadores em melhores condições nesse período.
E preocupa-te, achando que possa fazer a diferença pela negativa, se o Cristiano Ronaldo não recuperar a tempo de jogar o Mundial? Até porque não jogará os próximos preparativos…
Espero que ele jogue o Mundial! A lesão que ele tem não será impeditiva para isso e ainda tempo para recuperar até lá. O que desejo para Portugal é que todos os jogadores disponíveis, e que sejam convocados, estejam em condições. Sejam os melhores 23 ou 26, como seja o melhor 11 em cada jogo, para termos uma seleção categórica.
Tendo sido tu diretor das seleções nacionais de formação, como estamos nós de novos fomentos? Teremos, no futuro, muitos e bons craques, novos Pauletas e novos CR7?
Sim, acredito que sim. Temos trabalhado muito bem na formação. Temos clubes com ótimas academias nesse sentido. E todos os dias nascem miúdos que querem jogar futebol e que mostram o seu talento. Consequentemente os clubes trabalham-nos de uma forma boa e com qualidade. Deste modo, entendo que temos o futuro assegurado de mais craques e por muitos anos.
Fazendo o balanço do teu percurso profissional, qual aqueles momentos que mais te marcaram tanto positivamente como negativamente? E porquê?
Felizmente tive uma carreira com sucesso e com alguma sorte, porque nunca tive lesões graves por todos os clubes por onde passei. Consegui sempre objetivos importantes a nível coletivo e a nível individual. Na Seleção nacional ficou aquela mágoa de não ter conseguido marcar na final do Euro2004, diante da Grécia, com quem perdemos. Depois de termos deixado grandes seleções pelo caminho até chegar a essa final, foi bastante triste – para mim e para todos nós – não termos conseguido, até porque acreditávamos mesmo que seria possível conquistar esse europeu! Depois, como referi também, destaco os títulos individuais que ganhei em clubes como o Bordéus, o PSG, o Salamanca e o Deportivo da Corunha.
Em termos profissionais como tens preenchido o teu presente: que projetos manténs ligados ao futebol?
Estive até há meio ano como diretor da Formação das seleções na Federação Portuguesa de Futebol. Após ter cumprido três mandatos, de quatro anos cada, atingi o limite de poder continuar a fazer parte da Direção. Agora trabalho diretamente com o PSG, como «embaixador» - para a academia, para a formação e para os patrocinadores –, que requer essencialmente a minha presença institucional nas situações devidas. Além de manter, como é sabido, a minha escola de futebol nos Açores, onde construí desde 2004 um complexo com campos, formação, clube e fundação. Neste momento, temos aproximadamente 400 crianças. Estou muito orgulhoso e satisfeito com este projeto, e assim vou estando mais próximo da família e aproveitando melhor o tempo com ela.
Passaste muitos anos na chamada «cidade Luz». Que luzes consideras serem fundamentais para este nosso mundo, que parece insistir e gostar da escuridão e das trevas que se vão vivendo?
A escuridão e trevas deste tempo são a ganância, o dinheiro, o querer-se roubar e o enganar-se uns aos outros. Essa ganância, que se espalha mundo fora – e num mundo que podia ser tão bonito e maravilhoso –, faz com que as crianças cresçam num mundo de guerras, de aldrabices e de vigarices. Mas temos de pensar que o dia de amanhã vai ser melhor: se cada um de nós fizer o bem, de certeza que o mundo será melhor! Se continuarmos com essa forma de estar negativa e rodeada de conflitos, vai ser muito mais difícil.
Também sempre foste identificado pelo teu fair-play exemplar. Que ensinamentos darias aos governantes e empresários, para exercerem um melhor fair-play político, social e económico, pelo bem comum de todos?
Os ensinamentos que daria são aqueles que aprendi e com os quais tenho vivido a minha vida: o do respeito, o da educação, o da seriedade e o da honestidade. É isso que peço a eles todos, aos que nos governam no país, na Europa e no mundo. Se tivermos esses valores, com certeza que vamos ser melhores. Esse é um lema da minha vida, por isso é o mesmo que passo aos meus filhos, às pessoas de quem gosto, bem como às crianças formandas na minha escola de futebol.
O que mais te aflige e te faz chorar interiormente em termos das falhas e faltas nas relações humanas e a nível de conflitos e desentendimentos entre as nações?
Infelizmente, nos tempos de hoje, é só abrir as televisões e os jornais e ver as notícias. Acho que isso é mais do que suficiente para estarmos com o nosso coração partido. É uma enorme tristeza vermos pessoas a morrer diariamente, crianças a morrer diariamente. Fruto da tal ganância que falei antes, fruto de um conjunto de líderes – que na verdade não o sabem ser – sem quaisquer escrúpulos.
Quanto a Gondomar, tens alguma memória aqui passada ou de que forma te interpela?
Sinceramente, e para ser o mais honesto – pois podia estar a mentir para parecer bem –, eu nunca estive em Gondomar. Tenho essa ideia. Mas quando se fala em Gondomar, lembro-me naturalmente de acompanhar a sua equipa de futebol quando, na altura, estava na 2.ª Liga nacional.
Termino sempre estas entrevistas pedindo uma mensagem final inspiracional: qual foi aquela frase ou pensamento de algum livro, filme ou canção que sempre te marcaram e te guiam vida fora?
Vou ser repetitivo, mas essa é a minha tónica e coerência em apelar a que todos tenhamos respeito e educação. Pegando no slogan da minha escola de futebol, acho que é um bom repto para deixar a todos: “Faz por ser melhor”. Ali ensinamos isso, diariamente. Qualquer criança que faça desporto, independentemente de ser bom ou não naquilo que faz, de vir a ser jogador/a profissional ou não, o importante é que façam o melhor e por ser melhores.