Entrevista

“O que mais me impressiona: (…) a capacidade que as pessoas têm de amar, a entrega e a harmonia”

Texto: ANDRÉ RUBIM RANGEL, jornalista
([email protected])



Fernando Pereira nasceu em Lisboa a 14/03/1959. É um conhecido cantor, imitador entertainer e produtor de espetáculos, o “senhor das vozes” – como lhe chamam, sendo reconhecido internacionalmente, com um inesgotável reportório mundial. Possui uma dezena de álbuns na sua discografia. Já recebeu o prestigiante prémio «Pro Autor», atribuído pela Sociedade Portuguesa de Autores.

O facto de nascer no seio duma tradicional família alentejana marcou/marca a sua vida? Considera que se tivesse nascido noutra região portuguesa seria diferente?
Não faço ideia se seria muito diferente ou não. Mas o facto de toda a gente na minha família cantar e de ter crescido no meio deste ambiente, com coros alentejanos e música por todos os lados, teve certamente alguma influência. Ainda por cima, eu nasci no bairro de Campo de Ourique, mesmo no coração de Lisboa, onde tudo realmente acontece... Tornei-me por um lado um ser profundamente cosmopolita e universalista, mas por outro com uma forte ligação à terra e às artes, sem dúvida.

Desde que nasceu até se profissionalizar como artista, como foram preenchidos esses 23 anos de juventude?
Durante esse período aconteceu de tudo e tudo aconteceu muito rapidamente. Fui uma criança bastante apoiada e amada pelos meus pais, pela família, pelos bons amigos, que me ensinaram a ler, a estudar e a entender os grandes valores, escolhendo o lado bom da vida. Conheci ainda muitas dificuldades sociais e o que era viver debaixo da ditadura, numa total ausência de liberdades democráticas, em que o país não podia decidir o seu futuro e ninguém podia dizer verdadeiramente o que pensava, ou discordar do sistema, sem ir preso ou enfrentar problemas no trabalho, na escola... Assisti por dentro ao 25 de Abril, de uma forma que só muito poucos podem dizer que conseguiram. Vivi todas essas emoções, descobertas e contradições dos anos 70 e 80, estudei mecanotecnia, engenharia, fui militar em Mafra, eu sei lá... Aconteceu tudo muito rápido e intensamente, até começar a fazer espetáculos nas noites de Lisboa.

É o único no mundo com essa grande capacidade de imitação de várias vozes, a cantar diversos artistas? Que responsabilidade sente perante tal rigor e exigência?
Talvez seja verdade que sou mesmo o único, pois se buscarmos bem na internet ou doutra forma qualquer, não encontramos muitos cantores com essa capacidade vocal, artistas capazes de se “transformar” em sons tão diversos e cantar “vozes” tão multifacetadas como as que transporto para os meus espetáculos. Mas sinceramente não procuro com isso prémios, honrarias ou responsabilidades especiais. O meu compromisso de rigor e exigência é para com o público que gosta de mim e segue o meu trabalho, em Portugal, por esse mundo fora e que, graças a Deus, são muitos milhões de pessoas... Fazer cada vez melhor tem sido o meu objetivo ao longo dos anos e tenho sempre conseguido alcançá-lo até hoje.

Como consegue interpretar vozes tão distintas, dos agudos aos graves, de mais roucas a mais límpidas, etc.? Tem algum truque e/ou cuidado especial com a(s) voz(es)?
O que faço com a voz nasceu comigo, é uma condição genética. Não se consegue replicar ou explicar facilmente. Mas obviamente que tudo me dá muitíssimo trabalho. Desde o conceber e montar os espetáculos, criar os temas ou temáticas que quero abordar, escrever as ligações e intervenções em palco, ensaiar as vozes e particularidades de todos os cantores até à exaustão... É um processo enorme e imensamente trabalhoso, que se fosse fácil qualquer um fazia. Posto isto, os cuidados principais são tentar descansar o mais possível, beber litros de água e procurar fazer uma alimentação saudável e variada. Estar de bem com a vida e com os outros à nossa volta, também ajuda imenso.

Para si, qual a voz mais difícil de imitar? E a mais fácil?
As vozes mais difíceis são sem dúvida as de mulheres, especialmente sopranos. Mas fáceis não existe quase nenhuma. Todas as vozes, ainda que caricaturais, têm um determinado grau de dificuldade, se as quisermos fazer bem feitas e levar a sério este trabalho.

Que reações tem tido dos diversos cantores cujas vozes imita?
De um modo geral as reações são boas. Umas melhores que outras, mas sempre positivas. Existem até colegas cantores que me pedem para os imitar, ou cantar canções suas. E já tem acontecido eu seguir algumas sugestões.

Qual a voz que mais gosta de imitar? Porquê?
Não existe uma, existem várias. As vozes que me dão mais prazer imitar são geralmente as de grandes artistas já desaparecidos, que assim podem continuar a “viver” e a ser recordados nos meus espetáculos.

Nas décadas de 80-90 do séc. XX foi o artista português que realizou mais concertos ao vivo, por ano, com uma média de 150-160 espetáculos, em Portugal e no mundo. Ainda continua com este ritmo? Qual o segredo para tal gestão?
Hoje em dia já ninguém trabalha nesse ritmo, era bom era... A média de concertos baixou muitíssimo nos últimos anos, não tanto por culpa dos artistas que há, mas porque há cada vez mais artistas da treta e artisteiros de todos os géneros, uma concorrência desleal, de qualidade e gosto altamente duvidosos. Isto tudo associado ainda aos graves problemas desta crise sistémica, com a falência das Câmaras, das festas, das empresas e das pessoas em geral... Hoje, todos temos que gerir os custos e receitas com grande mestria, se quisermos continuar a ter resultados positivos.

Nessa altura também lançou vários dos seus discos, tendo amealhado a platina e o ouro. Atualmente, tem a mesma perspetiva de lançar novos álbuns como antigamente?
Claro que sim, embora os discos já não sejam tão importantes como eram no passado e apesar de, no meu caso, ser também bastante mais relevante a televisão e o conteúdo do espetáculo. Mas tenho sempre editado discos com alguma periodicidade, com algum sucesso e estou a pensar sair de novo com outro trabalho discográfico ainda este ano.

Já realizou digressões quase por todo o mundo. Como descreve as diferenças e semelhanças culturais e a adesão do público de país para país?
Todas as línguas são diferentes, todos os países e culturas têm as suas características, mas todos os públicos adoram boa música e um grande show de vozes, de imitações. Disso, não tenho absolutamente dúvida alguma.

O que o impressiona mais nesta diversidade cultural que atravessa o mundo, cada vez mais globalizada e “transculturalizada”?
O que mais me impressiona positivamente, apesar de tudo, é a própria natureza humana em si, a capacidade que as pessoas têm de amar, a entrega e a harmonia que se consegue atingir em todas as línguas e culturas, a boa energia de um grande espetáculo. Essa é, ainda, a realidade mais transcultural, global e importante que conheço.

Podemos dizer que os EUA são a sua segunda casa, dada a quantidade de concertos que lá realiza há muito tempo? O que tem para si de tão especial essa nação?
Depois de Portugal, os EUA são realmente o meu segundo “poiso”. Adoro também o Brasil, toda a África, o Reino Unido, o Canadá, muitos outros países, cidades e regiões por onde passei e fui feliz, como o Alentejo, os Açores, a Madeira, o Porto, Braga, Póvoa de Varzim, Figueira da Foz, Coimbra, Vilamoura, Portimão, eu sei lá... Mas os EUA têm realmente algo de muito especial. Costumo por vezes dizer que o meu coração se divide entre Lisboa, Mértola e Nova Iorque... 

O que destaca e recorda de mais significativo em 44 anos de carreira?
Não existem páginas suficientes neste jornal para contar essas histórias... De todos os países, lugares e cidades que visitei, por onde passei, levo um bocadinho, deixei um bocadinho e guardo sempre amigos, bonitas recordações. 

E de mais hilariante? Que peripécias lhe marcaram mais e jamais esquece?
Também foram muitíssimas essas situações. De tal forma que nem sei por onde começar... Mas um dia vou escrever todas as minhas memórias.

Quando completou três décadas de profissão foi reconhecido pelo World Voice Consortium. Da parte da Presidência da República Portuguesa desconhecemos qualquer reconhecimento. Sente-se, por isso, menos reconhecido e estimado em Portugal?
Eu trabalho para os portugueses, para as pessoas, para todo o público que gosta e acompanha os meus espetáculos. São muitos milhões de pessoas em Portugal e por esse mundo fora, como já disse antes e é deles que pretendo continuar a ter todo o apoio e reconhecimento, como até aqui. Felizmente e sem falsas modéstias, penso saber aquilo que valho, muitas entidades, profissionais das artes e outros entendidos parecem também reconhecer o meu verdadeiro valor, como se comprova. Não serão estes ou aqueles políticos que vão agora alterar isso... A maioria dos políticos passa, muitos até de forma triste e duvidosa, os bons artistas ficam para sempre no coração das pessoas. Com ou sem medalhas, é a feliz e pura realidade, que ninguém conseguirá alterar.

E, de modo geral, como descreve a sua relação e simbiose com o Porto – incluindo Gondomar –, enquanto distrito e região?
Bem, toda a gente sabe que o Porto é uma nação e que tudo começou aqui, a par das cidades limítrofes! Já fui, como disse algumas vezes, muito feliz no Porto, tenho grandes amigos na Invicta e um pouco por toda a região norte de Portugal. Um dos meus grandes amigos é o homem que me veste nos espetáculos, o costureiro José Maria Oliveira, de Famalicão. Eu não sinto nem ligo absolutamente a estas questões regionais ou regionalistas, pois felizmente sou um cidadão do mundo. Portugal é um país pequeno, lindíssimo e com gente fantástica de norte a sul... De Lisboa ao Alentejo, ao Algarve, a Coimbra ou ao Porto, são saltinhos de poucas horas... Se quisermos e soubermos viver, somos felizes em todo o lado. 

Imaginar-se-ia hoje a fazer outra arte que não esta? Arrepende-se de algo que tenha feito na sua vida profissional?
Não me imagino sequer a viver e a ser feliz de outra forma qualquer. Faria hoje tudo igual, de novo e só me arrependo de ter acreditado em pessoas que não mereciam um segundo da minha confiança. Ou seja, gostava de estar agora a começar tudo e a saber o que sei hoje, mas essa é, infelizmente, a grande contradição que todos enfrentamos na vida.

Por fim, o que falta ainda fazer ao artista Fernando Pereira antes de terminar a carreira?
Faltam talvez mais uns 30 anos (risos)...

 

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