Entrevista

“O poder está a fragmentar-se e não a concentrar-se. Há cada vez mais protagonistas com poder”

Texto: ANDRÉ RUBIM RANGEL, jornalista
([email protected])

Moisés Naím nasceu na Venezuela, em 1952. É escritor, editor-chefe da revista Foreign Policy (desde 1996) e um colunista internacional – escrevendo para os principais órgãos nas Américas, Alemanha, Espanha, EUA, França e Reino Unido –, autor ou editor de grandes obras (tendo o seu livro «O fim do poder» como a sua «magnum opus») e é, ainda, membro de: Conselho Internacional dos Media do Fórum Económico Mundial, do Conselho do Atlântico e do Diálogo Interamericano. Foi professor universitário e reitor da IESA – Caracas e, posteriormente, ministro do Comércio e Indústria da Venezuela e diretor executivo do Banco Mundial. É considerado um dos 100 pensadores mundiais mais decisivos da atualidade. É precisamente sobre a atualidade geopolítica e europeia de “guerras”, sobre o “poder do amor” e “o fim do poder” que versam os conteúdos desta entrevista.

Com o poder das guerras a crescerem nas nações, principalmente no G8 e/ou G20, continua a acreditar que é realmente possível o declínio do poder e o seu fim absoluto?

Se reparar, as guerras e os conflitos armados que ocorrem atualmente, não ocorrem somente entre nações. É interessante ver isso. Quando Vladimir Putin decide invadir a Crimeia, não o faz com o exército russo. Ele 'disfarça' o exército de militantes ucranianos, chamados 'os pequenos homens verdes'. Dizia que não eram russos, que eram simplesmente militantes, membros de uma ONG. Na verdade, eram militares russos, mas não se atreveu a usar o exército russo. No Médio Oriente houve o conflito com o Estado Islâmico, que não é um Estado da nação, é um grupo de insurgentes. O que se passou desde o final da Guerra Fria é que as guerras entre nações diminuíram e as guerras dentro das nações aumentaram. E aumentaram as guerras entre insurgentes, grupos guerrilheiros, milícias, etc. Vimos, há muito tempo, lutas armadas entre exércitos que representam dois países diferentes...

E são essas guerras e conflitos armados que causam mais emigrantes e refugiados?

Esse é um fenómeno que se tornou mais incidente em 2014 e 2015, devido às guerras em África e no Médio Oriente. Mas, até agora, a grande motivação dos refugiados era a busca de melhoria económica. A situação económica está má e era uma determinante da emigração. Mas isso mudou, por causa do conflito na Síria, no Médio Oriente e no norte de África.

Falando com toda a objetividade, quem é, para si, a pessoa que quer o poder total no mundo e nas sociedades? E com que fim?

Neste momento o poder está a fragmentar-se e não a concentrar-se. Há cada vez mais protagonistas com poder, mais que antes. E isso passa-se em todos os âmbitos, como na política, nas relações internacionais, na guerra, na sociedade, na religião, na família...  Cada vez mais se está a fragmentar o poder. 

Há muitos que têm poder, mas não cooperação. Os Estados assinam Acordos, mas que não se cumprem...

Precisamente porque o poder está sendo fragmentado...

Acredita que a União Europeia está mais em modo de "desunião"? Pode voltar a haver a União?

É o que desejo! Eu sou “europeísta”, acho importante que a Europa seja unida e forte. Aliás, é fundamental para a Europa e para o resto do mundo! A Europa tem valores que são muito significativos que sejam representados no mundo. Por isso, julgo ser muito necessário que o projeto europeu se mantenha e que seja um êxito. 

Qual o melhor remédio para curar esta Europa, tornando-a mais coesa e forte?

Que os europeus se voltem a apaixonar pela Europa. Quando se lançou o Euro, houve festas na Europa. As pessoas estiveram entusiasmadas pela Europa. Hoje em dia já não... Há que fazer com que os europeus sintam paixão, entusiasmo e amor pela Europa como conceito integrado.

Como é que o cidadão comum e as instituições sociais podem ajudar a acabar com a tirania dos poderes políticos e económicos e restaurar e espalhar o «poder do amor», para uma nova vida?

Já está a acontecer isso. Cada vez mais as pessoas, a sociedade, os indivíduos têm mais poder. Isso não quer dizer que não haja grandes poderes concentrados, mas hoje, mais do que nunca, as pessoas têm a oportunidade de ter influência.

Falo neste «poder do amor» já que escreveu no seu livro que o poder geral está em erosão. Este «poder do amor» também? E como pode ele ser alimentado pelos valores para poder mudar o mundo e devolver-lhe mais liberdade e igualdade? 

O amor é importante, mas as pessoas movem-se, também, pelas paixões e pelos interesses. Imagine que está na Síria, é raptado pelo Estado Islâmico, que o vão degolar. O que tem a ver isso com o amor? Nada, não há amor! Há paixão, há loucura, há interesses. Sim, o amor é importante, mas também são importantes os interesses.

Acredita e sente que desde que o seu best-seller «O fim do poder» foi publicado está “a mudar a maneira de pensar a política e a maneira de ver o mundo”, como descreveu Bill Clinton sobre o livro?

Sim, o livro teve um grande impacto no mundo. Todos os dias, repito, todos os dias, nalgum meio de comunicação mundial, há uma conversa baseada no livro. Desde a Nova Zelândia à Tailândia, Polónia, Marrocos, Peru, Estados Unidos, Inglaterra... Todos os dias, às vezes em mais do que um meio de comunicação, há colunas na televisão, na rádio, há políticos usando o discurso, em organizações da sociedade civil, a nível religioso...

Gosto particularmente do subcapítulo do livro denominado “todas as pessoas informam, todas as pessoas decidem”. Isso não gera um grande problema? 

Uma das áreas que tem tido maior peso e mais impacto, que vamos assistindo, é a dos meios de comunicação social, acerca da maneira como as pessoas se comunicam e se informam. 

No livro identifica as forças que contribuem para as transformações do mundo. Desde a publicação, em 2013, acha que as forças são as mesmas? Quais são as novas e as mais perigosas?

A tese do livro é que cada vez mais há mais protagonistas, há mais atores que têm a capacidade de influenciar os outros. Alguns deles são muito positivos! Acho que o Papa Francisco foi um protagonista renovado e foi muito positivo. Também considero que o Estado Islâmico foi outro protagonista, novo quando eclodiu, mas que não foi positivo. Há de tudo. 

Qual das forças pode fazer uma nova revolução?

As pessoas, sem dúvida! 

Em 2015, nas «Conferências do Estoril», proferiu que "não há choques de civilizações, mas dentro das civilizações, como no Estado Islâmico". Porquê?

Samuel Huntington premeditou que iria haver um choque entre civilizações. E o que vemos – nesse caso – é que houve e se mantém uma guerra dentro dos Estados Islâmicos, entre sunitas e xiitas.

Não acha que este choque, por ser tão forte e significativo, possa interferir com os Estados a nível mundial, chocando-os culturalmente?

Acho que isso existe, mas, de 1990 até hoje, os números de mortos por causa do terrorismo são muçulmanos assassinados por... muçulmanos…

 

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