Baguim do Monte Desporto

ALICE MOREIRA AMBICIONA IR AOS JOGOS PARALIMPICOS EM 2028

Alice Moreira, 23 anos, é atleta de Boccia e natural de Baguim do Monte. Pratica a modalidade há 14 anos e representa atualmente o Futebol Clube do Porto. Com paralisia cerebral provocada por complicações no parto, encontrou no Boccia uma forma de praticar desporto, competir e ultrapassar barreiras. Ao lado da filha, Ezequiel Moreira acompanha todo o percurso desportivo, Célia Moreira deixou tudo pela filha.

Como surgiu a paixão da Alice pelo Boccia?
Ezequiel Moreira:
 A Alice tem paralisia cerebral, provocada no parto. Foi um parto difícil, houve falta de oxigenação e isso afetou-lhe essencialmente a parte motora. A lesão afetou os movimentos: não fala e não anda porque não tem coordenação motora. A nível cognitivo é completamente normal, simplesmente não consegue verbalizar.

Célia Moreira: Nós comunicamos através de gestos e expressões. Quando temos mais dificuldade, ela utiliza o telemóvel, que está ligado à cadeira elétrica e permite-lhe escrever aquilo que quer dizer. Escreve no telemóvel através da cadeira e consegue, assim, transmitir a informação. Aquilo que nós fazemos com os dedos, ela consegue fazer com a cadeira, apenas com a cabeça. Tem uns sensores que lhe permitem comunicar aquilo que está a pensar. Já temos algumas coisas adaptadas. Os equipamentos são, na sua maioria, normais, mas a cadeira tem a possibilidade de acoplar este equipamento.

A cadeira elétrica é um equipamento bastante dispendioso?
E.M.:
 A Alice tem uma cadeira elétrica que custa cerca de 40 mil euros, mas, na verdade, foi completamente gratuita. A Segurança Social comparticipou. Faltam muitas coisas, mas esta conseguimos, desde que o processo seja feito como deve ser.

Que mudanças tiveram de fazer para a acompanhar?
E.M.:
 A mãe deixou de trabalhar desde o início para lhe dar todo o apoio. Depois, na sequência de um problema de saúde, também acabei por deixar de trabalhar e passei a dar apoio em casa. Tenho algum trabalho esporádico, até porque, para acompanhar a Alice no Boccia, também foi necessário parar. 

Para quem não conhece, o que é o Boccia?
E.M.:
 É um desporto que foi criado de raiz para pessoas com paralisia cerebral. Para dar dois exemplos comparativos, é muito parecido com a petanca, que também é desconhecida para muitas pessoas. São lançadas bolas pequeninas e depois são lançadas outras bolas com o objetivo de as aproximar o máximo possível. Para os gondomarenses, em especial, é mais parecido com o jogo da malha, mas com bolas. Os sets são constituídos por seis bolas azuis, seis bolas vermelhas e uma bola branca, que funciona como o “meco”. Antes de entrar em campo, um jogador só pode jogar com seis bolas, azuis ou vermelhas. O jogador que tem as vermelhas inicia sempre os jogos, lançando também a bola branca, e a partir daí começa a partida. É uma modalidade bastante mais complexa do que aquilo que possa parecer.

Como surgiu a ideia de a colocar no Boccia?
E.M.:
 A determinada altura, a Alice estava na escola e não fazia mais nada. Começou a existir a necessidade de a ocupar com outras atividades, nomeadamente desportivas. Ela já tinha conhecido o Boccia e mostrou vontade de experimentar. Começou na Associação do Porto de Paralisia Cerebral e esteve lá durante dois anos e meio.

Foi algum médico que aconselhou a prática desta modalidade?
E.M.:
 Não. Nós quisemos que ela tivesse uma atividade desportiva. O Boccia é muito mais estratégico e psicológico do que aquilo que se possa imaginar quando se vê apenas um jogo.

C.M.: Mas acredito que qualquer médico aconselhasse a prática de uma atividade física como esta, porque exige concentração, disciplina e também um determinado posicionamento físico, que ajuda a treinar os músculos.

Sendo o pai quem acompanha a Alice e estando dentro de campo com ela, também sente a competição de forma intensa?
E.M.:
 Na classe em que a Alice está, acabo por estar dentro de campo. É muito difícil para mim. A Alice esteve agora no Cairo e sinto-me o grande responsável por ela não ter ganho. O jogo não estava a correr bem e a primeira coisa que a Alice faz é ler as expressões faciais. Isso acabou por a destabilizar um pouco. Estou lá dentro com ela e quero que tudo corra bem, não por mim, mas obviamente por ela. Quer se queira quer não, era uma competição muito importante. Foi a primeira competição sénior e a primeira pela Seleção Nacional, por isso era muito importante que corresse bem.

Que clube representa a atleta?
E.M.:
 A Alice é atleta do Futebol Clube do Porto e está no clube há 11 anos. E, também, é uma adepta deste clube.

Como surgiu a convocatória para a Seleção Nacional?
E.M.:
 Existe um selecionador nacional que acompanha os atletas e faz as convocatórias, primeiro para os estágios. Já prevíamos que a Alice pudesse ser chamada, até porque já foi campeã da Europa pela Seleção Nacional de jovens. Foi também considerada a melhor mulher da Europa pela seleção de jovens, no ano passado, bem como a melhor mulher do Mundo nessa mesma seleção. No ano passado, em Curitiba, no Brasil, realizou-se o Campeonato do Mundo. Como não havia mulheres suficientes para realizar a competição separadamente dos homens, a Alice competiu com eles. Ainda assim, foi a melhor mulher do mundo e conseguiu chegar ao pódio, terminando em terceiro lugar entre os homens. Na Turquia ficou em quarto lugar, mas foi a mulher que chegou mais perto do pódio.

Como são financiadas as viagens e as competições internacionais?
E.M.:
 A Seleção financia tudo. Todos os custos são assegurados pelas entidades responsáveis pelo desporto adaptado.Além disso, o Futebol Clube do Porto apoia-nos em tudo. A Alice está lá há 11 anos e não temos nada a apontar. Digo isto muitas vezes: o FCP é o melhor clube do mundo no que toca ao desporto adaptado. Não tem apenas Boccia, tem goalball, natação, basquetebol e várias outras modalidades.
Muito devemos ao falecido presidente Jorge Nuno Pinto da Costa, que criou esta secção, e também ao André Villas-Boas, que está a fazer um trabalho excelente. O FCP dá condições excelentes, o que nos permite manter a nossa filha na prática deste desporto. É um orgulho para nós, não só enquanto portistas, mas também enquanto pais da Alice, ver que é um clube inclusivo.

E quanto custa todo o equipamento necessário para competir?
E.M.:
 A calha, que sou eu que faço, custa cerca de 2500 euros. Se mandarmos vir uma das melhores que existem, 4000 euros não chegam. Depois, as bolas têm de ser certificadas. Cada set tem 13 bolas, seis azuis, seis vermelhas e uma branca, e custa cerca de 1500 euros. A Alice utiliza três sets. Há ainda o capacete e todo o restante material, que é adquirido por nós. Muito desse material é feito por mim, o que nos ajuda bastante a reduzir os custos.

Quais são os principais objetivos para o futuro?
E.M.:
 O objetivo é a Alice conseguir fixar-se na Seleção Nacional e chegar aos Jogos Paralímpicos. Já está no programa paralímpico para Los Angeles, mas ainda tem de fazer a preparação e atingir determinados resultados. Há vários atletas com a mesma ambição. Este ano conseguimos atingir todos os objetivos que tínhamos traçado para o Campeonato Nacional. Outro objetivo era a convocatória para a Seleção, que também conseguimos. Agora é continuar a trabalhar, manter o nível e tentar chegar ao principal objetivo, lutando para conseguirmos concretizar aquilo a que nos propusemos.

Sentem que existe reconhecimento por parte do Município de Gondomar?
E.M.:
 Não. O Município de Gondomar não olha para o desporto adaptado da mesma forma que olha para os outros desportos, infelizmente. Gostava muito que isso acontecesse, para que houvesse outro tipo de dinamismo no desporto adaptado no nosso concelho. Gondomar tem muitos atletas e bons atletas no desporto adaptado.

Que mensagem gostariam de deixar?
E.M.: Quero agradecer ao Futebol Clube do Porto em todos os sentidos. Não existe nenhuma compensação financeira ao final do mês, mas todas as condições são asseguradas e isso é muito importante para nós.

C.M.: Gostava que olhassem para o desporto não apenas como uma forma de retorno, mas também como uma forma de reconhecimento aos atletas pelo trabalho diário que desempenham.

 

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