Há mais de uma década que os Camponeses de Portugal, da Cidade Duques de Caxias, no Rio de Janeiro, representam fielmente o Rancho Folclórico de Zebreiros, no Brasil. Da confeção dos trajes em Gondomar à recriação de tradições como a vindima e a desfolhada, o objetivo é preservar e divulgar a cultura portuguesa junto da comunidade luso-brasileira. Manuel Matos, Rita Gomes e Vítor Pereira explicam como nasceu esta parceria e os desafios de manter vivo o folclore português no Brasil.
Como surgiu a ideia de representar o Rancho Folclórico de Zebreiros no Brasil?
Manuel Matos: O nosso grupo foi fundado há 53 anos. No início, como muitos outros, dançávamos e trajávamos aquilo que considerávamos bonito, sem representar uma região específica de Portugal. Quando integrei o conselho técnico da Federação do Folclore Português percebi que fazia sentido escolher uma região para representar de forma autêntica. Sempre gostei do folclore do Douro Litoral e, durante uma visita a Gondomar, fui convidado a assistir a um ensaio do Rancho Folclórico de Zebreiros. Fui recebido de uma forma tão calorosa que decidi, naquele momento, que seria este o grupo que passaríamos a representar.
O grupo reproduz exatamente o trabalho desenvolvido em Zebreiros?
M.M: Sim. Desde 2011 que procuramos fazer uma representação o mais fiel possível. Sabemos que nunca seremos exatamente iguais, mas aprendemos diretamente com o Rancho de Zebreiros. As danças são tal como são feitas em Portugal e até os nossos trajes foram confecionados em Zebreiros. O transporte de todo esse material para o Brasil foi um verdadeiro desafio (risos).
O que distingue o vosso grupo de outros ranchos portugueses existentes no Brasil?
M.M: Muitos grupos optam por adaptar as danças ao espetáculo, aquilo a que chamamos "showclore". Nós fizemos a opção contrária: seguir rigorosamente as regras do folclore português. O nosso compromisso é preservar a autenticidade da tradição e da região.
O que representa esta parceria para o Rancho Folclórico de Zebreiros?
Rita Gomes: Foi um enorme orgulho. Desde o primeiro contacto abraçámos este projeto porque representa uma forma de internacionalizar o nosso rancho e divulgar a cultura de Zebreiros além-fronteiras.
Qual é o principal objetivo das visitas que realizam a Portugal?
R.G: O mais importante é fortalecer os laços entre os dois grupos. Queremos que os elementos brasileiros conheçam a realidade que representam, porque vestir o traje e dançar é importante, mas viver a cultura no local onde ela nasceu é uma experiência completamente diferente.
Vítor Pereira: Muitos de nós sonhavam conhecer Portugal. Quando participámos no Festival de Folclore de Zebreiros e percorremos as ruas vestidos com os trajes tradicionais, rodeados pelas casas de pedra e pela população, sentimos que estávamos verdadeiramente a viver a história daquela região. Foi uma experiência inesquecível.
O folclore enfrenta dificuldades em captar jovens também no Brasil?
V.P: Sim. No Rio de Janeiro já chegaram a existir 26 grupos folclóricos. Hoje somos apenas 11. A era digital alterou os hábitos dos jovens e tornou mais difícil renovar os grupos.
Como procuram contrariar essa realidade?
V.P: Continuamos a lutar para manter o grupo vivo e preservar a nossa identidade. Preferimos atuar com menos pares do que recorrer constantemente a elementos de outros ranchos. Queremos manter um grupo coeso e estamos sempre de portas abertas para quem queira fazer parte desta família.
De que forma divulgam a cultura de Zebreiros junto da comunidade brasileira?
M.M: Não mostramos apenas as danças e os trajes. Recriamos tradições como a vindima e a desfolhada, utilizando os mesmos utensílios e procedimentos que existem em Portugal. Também divulgamos todo esse trabalho através das redes sociais, na página "Camponeses de Portugal". O público participa com entusiasmo e isso mostra que estas tradições continuam vivas.
Contam com apoios institucionais?
M.M: No Brasil ainda não temos apoio estatal, embora estejamos a trabalhar para criar uma geminação entre Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, e o concelho de Gondomar. Em Portugal temos recebido um apoio muito importante da Câmara Municipal de Gondomar, que nos ajuda na logística, e do Intermarché de Jovim, que tem colaborado com a alimentação durante as nossas visitas. Estamos profundamente agradecidos por todo esse apoio.