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Gondomar atento: ansiedade marca gerações

Especialistas falam ao nosso jornal

Dos jovens às famílias, dos consultórios às escolas, cresce uma crise silenciosa que já ninguém consegue ignorar A ansiedade sempre fez parte da condição humana. Durante séculos, foi um mecanismo essencial de sobrevivência, um sistema de alerta que preparava o corpo para reagir ao perigo. Hoje, continua a existir, mas com uma diferença fundamental: já não se limita a momentos de risco. Para muitos, tornou-se um estado permanente.

Em Gondomar, essa transformação está à vista. Nas escolas, nos serviços de saúde e nas famílias, acumulam-se sinais de uma realidade que se intensifica: a ansiedade deixou de ser pontual para se tornar estrutural.

“A ansiedade é um fenómeno psicobiológico expectável em todos nós”, explica a psicóloga clínica Marília Rodrigues. “Protege-nos. O problema é quando deixa de cumprir essa função e passa a dominar a pessoa.”

A dimensão do problema torna-se evidente quando se ouvem os próprios jovens. Num levantamento realizado na Escola E.B 2/3 de São Pedro da Cova e na Escola E.B 2/3 de Rio Tinto, pela Associação Social dos Silverinhos, do concelho de Gondomar, a resposta foi clara: a ansiedade está presente no quotidiano da maioria.

No âmbito do projeto “Ama-te pela tua saúde”, desenvolvido pela Associação Social de Silveirinhos, a ansiedade foi o tema mais identificado entre alunos do 3.º ciclo. “Não houve uma turma onde não surgisse”, revela Matilde Monteiro, responsável pelo projeto. Mais do que um dado estatístico, trata-se de um retrato geracional. Jovens que vivem num estado de alerta constante, muitas vezes sem compreenderem o que sentem.

“Percebemos que muitos não sabiam sequer identificar as emoções”, acrescenta Claúdia Póvoas, responsável pelo projeto, “sentem, mas não conseguem explicar.”

A explicação para este fenómeno não é única, mas há fatores que se repetem. As redes sociais, por exemplo, surgem como um dos principais catalisadores.

Para a psicóloga forense Letícia Rodrigues, os jovens vivem hoje “numa lógica de comparação constante com realidades filtradas e o resultado é uma sensação permanente de insuficiência. A isto junta-se o medo de exclusão — o chamado “fear of missing out” — e uma necessidade crescente de validação externa.

Mas o problema vai além do digital. A pandemia deixou marcas profundas. “As crianças e os jovens passaram uma fase crucial em casa. Houve um défice de interação social.” Esse afastamento teve consequências diretas nas competências emocionais. “Desaprenderam a comunicar. Muitas vezes não sabem o que estão a sentir — e isso aumenta ainda mais a ansiedade”.

Há também uma dimensão biológica. O contacto humano estimula a libertação de substâncias associadas ao bem-estar. Sem ele, esse equilíbrio é afetado.

“O ser humano está programado para estar com o outro”, reforça Marília Rodrigues. 

Apesar de ser cada vez mais comum, a ansiedade continua muitas vezes escondida. Sobretudo nas crianças e adolescentes, os sinais podem passar despercebidos. “Nem sempre é óbvio”, explica Marília Rodrigues. “Pode manifestar-se através do corpo ou do comportamento.”

Dores de barriga, dores de cabeça, irritabilidade, isolamento ou dificuldades escolares são alguns dos sinais mais frequentes. Em muitos casos, os pais só se apercebem quando o impacto já é significativo. Letícia Rodrigues reforça que os sintomas físicos são particularmente comuns. “Taquicardia, tonturas, tensão muscular, problemas de sono… tudo isto pode estar associado à ansiedade.”

E há um sintoma que se repete: o aperto no peito. “As pessoas pensam que é o coração, mas os exames não mostram nada”. 

Nos casos mais extremos, surgem os ataques de pânico — episódios intensos e assustadores que levam muitas pessoas a procurar ajuda urgente. “A pessoa sente que vai morrer”, explica Marília Rodrigues. “O coração dispara, falta o ar, há desrealização.” O problema agrava-se quando surge o medo de repetir a experiência. “A pessoa passa a ter ansiedade de ter ansiedade.” Nesses momentos, a resposta não passa por palavras tranquilizadoras, mas por técnicas concretas. “É preciso focar a pessoa no aqui e no agora”, explica, referindo estratégias como o grounding (técnicas auditivas de modo a acalmar o paciente e focar-se em outras questões que não o ataque ansioso).

Nem toda a ansiedade é negativa. Aliás, em muitos casos, é essencial para o desempenho. “Uma certa dose de ansiedade ajuda-nos”, lembra Marília Rodrigues, “prepara o sistema nervoso.”

Mas quando deixa de ajudar e começa a bloquear, o cenário muda. “Quando a pessoa evita, foge ou deixa de funcionar, pode ser um sinal de algo mais grave.”

A psiquiatra e diretora da Unidade Local de Saúde Mental de Gondomar, Ana Sofia Pinto reforça essa ideia: “Consideramos patológico quando há impacto na funcionalidade”. E esse impacto pode ser profundo. “A ansiedade impede pessoas de trabalhar, de sair, de estar com outros.”

Histórias que dão rosto ao problema

Por trás dos dados e das análises, estão histórias reais.
Goreti Teixeira recorda o momento em que tudo começou: um voo em 2007. “Nunca me tinha sentido assim. Achei que ia morrer.” O episódio desencadeou uma fobia que a acompanhou durante anos. “Fiquei 11 anos sem viajar de avião.”

Patrícia Ribeiro viveu uma realidade diferente, mas igualmente marcante. “Sempre fui ansiosa, mas só percebi mais tarde.” Recentemente, enfrentou um burnout. “O meu cérebro não desligava. Estava constantemente em alerta.” A crise culminou num ataque de pânico num supermercado. “Foi assustador. Parecia que ia morrer.”

Hoje, ambas defendem a importância de procurar ajuda e de falar sobre o tema. “Não é fraqueza”, sublinha Patrícia. “É algo que precisa de ser tratado.” A ansiedade limitou-as, mas não as impediu de procurar ajuda e viver. Foi através dessa ajuda que conseguem desempenhar outras funções e, no caso da Goreti, voltar a voar. Ser ansioso não é uma prisão, nem deve ser. 

Diagnóstico: um processo complexo

Identificar a ansiedade não é sempre simples. “É uma linha ténue”, admite Marília Rodrigues. 

O diagnóstico envolve entrevistas clínicas, avaliação de sintomas e exclusão de causas físicas. “Tem de ser feito por profissionais”, explica Letícia Rodrigues. Muitas vezes, o problema está na deteção tardia. “Há pessoas que só são diagnosticadas aos 50 anos”, refere. Isso deve-se, em grande parte, ao estigma. “As gerações anteriores foram educadas para aguentar.”

A crescente procura por apoio psicológico e psiquiátrico coloca desafios ao sistema de saúde. “A saúde mental continua a ser o parente pobre”, afirma Marília Rodrigues.

A falta de profissionais e os longos tempos de espera dificultam o acesso. Em muitos casos, as pessoas só chegam aos cuidados especializados em situações de crise.

“Muitos entram pelo serviço de urgência”, explica Ana Sofia Pinto. “Porque os sintomas são muito intensos.”

Perante este cenário, a prevenção torna-se essencial.

Em Gondomar, projetos como o da Associação Social de Silveirinhos mostram que é possível intervir cedo. Através de programas em escolas, apoio psicológico gratuito e atividades de sensibilização, tenta-se travar o problema antes que se agrave. Mas há obstáculos. “Ainda existe muito preconceito”, admite Matilde Monteiro. “E muitas famílias não veem a psicologia como prioridade.”

A falta de financiamento também limita a continuidade dos projetos.

A ansiedade não surge no vazio. É reflexo de um mundo acelerado, exigente e, muitas vezes, instável. A pressão académica, a incerteza económica, a exposição constante nas redes sociais e a fragilidade das relações contribuem para um cenário onde o equilíbrio emocional é cada vez mais difícil. “Estamos num mundo onde tudo é rápido e pouco sólido”, resume Claúdia Póvoas.

O papel das famílias e da comunidade

A resposta à ansiedade não pode ser apenas clínica. Envolve famílias, escolas e toda a comunidade.

Os pais têm um papel central. “Devem ser exemplo”, explica Letícia Rodrigues. “Não basta dizer, é preciso mostrar.” Também as escolas desempenham uma função importante na deteção precoce. Professores e psicólogos são muitas vezes os primeiros a identificar sinais. A nível local, iniciativas que ligam saúde mental, desporto e bem-estar procuram criar respostas mais integradas.

Gondomar dispõe de uma Unidade Local de Saúde Mental que através de uma equipa multidisciplinar, composta por enfermeiros, psiquiatras, psicólogos, dão apoio ao concelho gondomarense, à exceção da Lomba que pertence à ULS Gaia/Espinho. Além do consultório clínico tem também a possibilidade de internamento. A Unidade localiza-se na Rua do Vale do Chão, nos Sete Caminhos (São Cosme) e está ligada com o Hospital de Santo António. Desde final de 2024 é que se tornou possível o internamento psiquiátrico. Os doentes são sinalizados pelas escolas, hospitais e médicos de família e podem ser encaminhados para tratamento nesta unidade. 

Além do tratamento clínico também são dadas ferramentas no que toca ao controlo do corpo sem recurso à medicação. Há um Grupo de relaxamento, orientado pela Dra. Raquel Oliveira (psicóloga) e que tem uma equipa de terapeutas multidisciplinar. Ensinando técnicas de relaxamento em situações com diagnóstico de ansiedade.
A Câmara Municipal de Gondomar está preocupada com esta situação. “O Município está preocupado vemos esta evolução da ansiedade e das patologias de saúde mental com atenção. Estamos a acompanhar de perto o que se passa com os nossos jovens e adultos. O trabalho da Unidade Local tem sido fundamental para prevenir e intervencionar nestes jovens, bem como os projetos que foram desenvolvidos pelas Associações como o da Associação dos Silveirinhos, com o apoio da Direção Geral da Saúde. Estamos atentos. E por isso as inúmeras iniciativas que fazemos para a promoção do envelhecimento ativo e a inclusão social, achamos fundamental. Um problema de saúde mental é tão grave como um de saúde física. O nosso município preocupa-se com a saúde mental dos gondomarenses”, refere o vereador com o pelouro da Saúde, José Fernando Moreira. 

Aprender a viver com a ansiedade
Eliminar a ansiedade não é possível, nem desejável. O objetivo é aprender a geri-la. Isso implica autoconhecimento, estratégias de regulação emocional e, quando necessário, apoio profissional. Implica também uma mudança cultural. Falar mais sobre saúde mental, reduzir o estigma e reconhecer que pedir ajuda é um passo essencial. Em Gondomar, como no resto do país, essa mudança já começou. Mas ainda está longe de estar concluída. Porque, no fim, a ansiedade pode ser um sinal de alerta. Mas quando nunca desliga, deixa de proteger e passa a aprisionar.

 

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