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Inteligência artificial na educação: entre a promessa da inovação e os desafios de uma mudança inevitável

A inteligência artificial deixou de ser uma tendência futura para se tornar uma presença concreta no quotidiano das escolas, universidades e espaços de aprendizagem. Entre alunos que recorrem a ferramentas generativas para estudar, professores que as utilizam para preparar aulas e instituições que tentam redefinir métodos de avaliação, a educação encontra-se num momento de transição. O impacto desta tecnologia não se limita à eficiência ou à inovação: levanta questões sobre o papel do conhecimento, da avaliação e da própria aprendizagem.

Para o Professor Álvaro Barbosa, da Escola Secundária de Rio Tinto, esta transformação é comparável a poucas revoluções tecnológicas anteriores, sobretudo pela velocidade com que se impõe e pela autonomia que oferece. “A inteligência artificial é uma inovação tecnológica diferente das que estamos habituados, primeiro pelo grau de velocidade e de autonomia que é capaz de transformar”. Na sua perspetiva, a IA não representa apenas uma ferramenta adicional, mas uma mudança estrutural na forma como as competências se desenvolvem e se aplicam. “Na prática sou capaz de dizer que quando se trata dos níveis da evolução da pessoa, passamos de um júnior para um sénior.”

Esta aceleração da aprendizagem e da produção de conhecimento levanta, no entanto, diferentes interpretações sobre o seu impacto. O professor considera que a tecnologia pode ser altamente benéfica, dependendo da forma como é utilizada. “A sua utilização é sempre um benefício, depende da maneira como queremos olhar para as coisas”, criticando, simultaneamente, a abordagem europeia, que considera excessivamente restritiva. “A Europa está a olhar para isto como o problema pela quantidade de restrições que está a fazer à sua utilização. Na realidade não temos nenhuma empresa que a tenha desenvolvido”. 
 

Para a Vice-Reitora da Universidade Portucalense, Elizabeth Real, “A inteligência artificial representa uma oportunidade muito relevante para a educação. Permite personalizar a aprendizagem, apoiar os estudantes na compreensão de conteúdos, estimular o pensamento crítico e facilitar o acesso a informação de qualidade. Quando bem utilizada, pode funcionar como um "copiloto" da aprendizagem, ajudando os alunos a explorar temas, organizar ideias e desenvolver competências. Para os docentes, é também uma ferramenta importante para inovar metodologias de ensino e avaliação”. 

No contexto educativo, o impacto já é visível em várias áreas, na programação, o recurso a ferramentas de inteligência artificial tornou-se praticamente universal. “Há áreas que vão ser mais atingidas, como a área da programação”, refere Álvaro Barbosa. Segundo o docente, não só é evidente a utilização destas ferramentas, como também é possível identificar alterações no próprio estilo de produção. “Consigo detetar quando é utilizada a IA, porque esta área tem uma escrita específica e conseguimos ver quem passou pelos métodos mais antigos e quem entrou de repente na linguagem de programação com outras ferramentas.”

Apesar das transformações, o Professor admite recorrer a inteligência artificial no seu trabalho. “Eu utilizo o ChatGPT e pago para a sua utilização. Utilizo para dar aulas basicamente.” O recurso à tecnologia permite-lhe otimizar processos de preparação de conteúdos. “Há um conteúdo que é preciso estruturar e organizar, criar um mapa mental, uma aula, e a ferramenta estrutura isso com facilidade. Não preciso de me preocupar se a imagem tem ou não direitos de autor”.

A presença da inteligência artificial no ensino altera também a forma como o tempo e o trabalho pedagógico são organizados. Para o professor, várias tarefas tradicionais tendem a desaparecer ou a ser profundamente modificadas. “A recolha de registos e tratamento de dados é um trabalho que acaba por desaparecer porque a própria inteligência artificial faz isso.” Esta automação crescente levanta, contudo, a necessidade de repensar a própria educação. “Temos de adaptar a educação à inteligência artificial”, defende.

Essa adaptação torna-se particularmente evidente na avaliação dos alunos. O professor reconhece que os métodos tradicionais já não são suficientes para garantir autenticidade ou aprendizagem real. “Neste momento trabalhos de investigação, para mim acabaram. O ChatGPT faz o trabalho. Para colmatar esta situação coloco perguntas estratégicas de acordo com o ponto que quero abordar no trabalho. O aluno tem de compreender aquilo que está feito”.

Elizabeth Real concorda com o professor, afirmando que as formas de avaliação têm de passar sobretudo pelo processo. “Privilegiamos formas de avaliação que valorizam o processo e não apenas o produto final, tais como, como apresentações orais, discussões, trabalhos aplicados, acompanhamento contínuo e ligação a contextos reais. Isto permite perceber o nível de domínio do estudante e torna muito mais difícil a utilização indevida destas ferramentas”.
Apesar das questões positivas que possa trazer e dos métodos para colmatar esta utilização, a forma abusiva como é utilizada pode ser combatida, de acordo com a vice-reitora da Universidade Portucalense. “A solução passa por três eixos fundamentais: literacia digital e ética, ensinando os estudantes a usar estas ferramentas de forma responsável; adaptação dos modelos de ensino e avaliação, valorizando pensamento crítico, criatividade e aplicação prática e integração consciente da IA no ensino, assumindo-a como uma ferramenta legítima, mas enquadrada por regras claras. A educação não deve ignorar a IA — deve incorporá-la de forma inteligente”.

No entanto, esta evolução não está isenta de riscos. Uma das principais preocupações de Álvaro Barbosa é a possível diminuição das capacidades cognitivas dos alunos. A facilidade de acesso à informação e à produção automática de conteúdos pode reduzir o esforço intelectual necessário ao desenvolvimento do pensamento crítico.

Para o vereador da educação, da Câmara Municipal de Gondomar, Nuno Fonseca, em concordância com o docente da escola secundária sublinha que “o uso acrítico da inteligência artificial pode levar à reprodução automática de conteúdos, sem aprendizagem efetiva, e até a práticas desonestas. No entanto, o problema não está na ferramenta em si, mas na forma como é utilizada. Tal como aconteceu com a internet no passado, a solução não é proibir, mas educar para o uso responsável, promovendo competências como a análise crítica, a validação de fontes e a autoria consciente”.

Outro desafio crescente prende-se com a autenticidade dos trabalhos académicos. “A deteção automática não é totalmente fiável. Existem ferramentas que tentam identificar textos gerados por IA, mas não são infalíveis. Por isso, não baseamos a nossa abordagem apenas na deteção tecnológica”, sublinha a vice-reitora. 

“Nós conseguimos detetar, mas não consigo provar que foi utilizado com IA. Acho e devido ao meu conhecimento consigo ter outras perceções, mas não tenho certeza, não é possível prová-lo”. Este problema é agravado pelo surgimento de novas formas de fraude tecnológica. “Já há métodos de copiar nos testes sem que as pessoas se apercebam. Existem fones que transmitem respostas ao ouvido e até capacetes que escrevem pensamento no ecrã”, reforça o professor da Escola Secundária de Rio Tinto.

Nuno Fonseca refere que a inteligência artificial deve ser encarada como uma ferramenta de apoio e não como uma ameaça. “A inteligência artificial pode ser uma ferramenta profundamente transformadora na educação, desde que bem enquadrada.” Entre os principais benefícios, destaca a personalização da aprendizagem e o apoio ao trabalho docente. “A resposta passa pela adaptação do próprio sistema educativo”, afirma. Essa adaptação inclui a revisão dos métodos de avaliação, privilegiando competências como o pensamento crítico, a oralidade e a aplicação prática do conhecimento. “É necessário rever métodos de avaliação, privilegiando mais o raciocínio e o trabalho aplicado”.

A literacia digital surge como uma competência essencial no futuro da educação. Segundo o vereador da educação, os alunos devem ser preparados não apenas para utilizar tecnologia, mas para a interpretar e questionar. “É fundamental ensinar a validar fontes, a analisar informação e a usar a inteligência artificial de forma ética.” Também a formação de professores é considerada um elemento decisivo neste processo. Sem docentes preparados, a integração da IA corre o risco de ser superficial ou desigual. “A formação contínua dos professores será decisiva para integrar estas ferramentas como aliadas pedagógicas”.

A nível local, algumas iniciativas começam já a refletir esta mudança. O concelho de Gondomar, por exemplo, tem investido na modernização do ensino através de projetos tecnológicos. O Centro Tecnológico da Escola Secundária de Rio Tinto é um exemplo de boas práticas. “Mostra que é possível integrar inovação com qualidade pedagógica.” Para o vereador, este tipo de iniciativas demonstra que a educação pode evoluir sem perder o seu propósito fundamental.

A vice-reitora da Universidade Portucalense reforça esta visão de transformação equilibrada. A inteligência artificial é descrita como uma ferramenta com elevado potencial educativo. 

Luís Alves, alunos de programação, refere que na sua área de estudo, a programação, “uso imenso a IA para me ajudar a rever código e resolver problemas que me surjam na inserção do mesmo. Não uso apenas o ChatGPT, há ferramentas que são especificas para código. Nas outras disciplinas, utilizo-a para estruturar apresentações e trabalhos, corrigir erros de escrita e, também, como apoio ao estudo no dia a dia. O que acho que pode ser negativo é a utilização de forma indevida e abusiva. Estamos numa altura que esta tecnologia não deve ser ignorada, e acredito que a forma de lecionar deve ser alterada e adaptar-se a este novo paradigma, que é a presença da inteligência artificial como um suporte diário”. 

No conjunto, as diferentes perspetivas convergem num ponto essencial: a inteligência artificial já faz parte da educação e não será possível ignorá-la. O desafio não é travar a sua entrada, mas definir de que forma será integrada. Entre a preocupação com a perda de competências e a esperança numa aprendizagem mais personalizada, a educação enfrenta uma transformação profunda e irreversível.

Como finaliza o Professor Álvaro: “A IA está em todo o lado. Não podemos evitá-la”.

 

                       Nuno Fonseca - vereador da Educação CMG

 

 

Luís Alves - aluno de programação

Vice-reitora Uni. Portucalense - Elizabeth Real



 

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