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Moinhos de Jancido renascem pelas mãos dos Rapazes e Raparigas de Jancido

Os Moinhos de Jancido são um dos ex-libris de Gondomar e particularmente União de Freguesias de Foz do Sousa e Covelo. Este espaço é mantido há dez anos pelos autointitulados Rapazes de Jancido que vão reflorestando este local e tornando-o um local biodiverso. Estivemos à conversa com a equipa inicial deste projeto António Gonçalves, Paulo Campos, Manuel Jesus, Manuel Sousa, Fernando Sousa e Nelo Sousa.

Como tem evoluído o grupo dos rapazes de Jancido ao longo dos anos?
Ao longo deste percurso fomos sentindo, de forma muito natural, que o grupo foi crescendo. No início éramos poucos, quase um grupo informal movido pela vontade de fazer algo pela nossa terra, mas hoje já somos 14 pessoas ativas (Paulo Campos, Manuel Sousa, Nelo Sousa, Fernando Sousa, António Gonçalves, 
Manuel Cruz, Joel Neves, Marcos, Heloísa Bona, Sandra Gonçalves, Pedro Sousa, Carla, Nelson e Paulo Sousa). Esse crescimento não se refletiu apenas em números, mas também na diversidade e na dinâmica do grupo. As nossas mulheres juntaram-se ao projeto e hoje dizemos com orgulho, que somos os rapazes e raparigas de Jancido. Essa identidade coletiva tornou-se muito forte. Paralelamente, também crescemos no impacto do nosso trabalho: há quatro anos celebrávamos o facto de termos ultrapassado as mil árvores plantadas. Atualmente falamos em mais de 12 mil, o que mostra bem a dimensão que o projeto ganhou.
 

O que vos motiva a continuar este trabalho?
É difícil explicar de forma simples, porque não há apenas um motivo. Aquilo que nos move é uma conjugação de fatores: o espírito de grupo, a aprendizagem constante e o desafio que cada intervenção nos traz. Mas, talvez, o mais importante seja a componente de partilha e de serviço à comunidade. Percebemos que o nosso espaço privado é limitado, porém aqui estamos a trabalhar num “jardim” que é de todos. Isso dá um sentido mais altruísta ao que fazemos. Saber que outras pessoas podem usufruir deste espaço, caminhar, aprender e sentir a natureza, acaba por ser uma das maiores recompensas.

Quando fala em desafios a que se refere?
O desafio principal passa por conseguir melhorar continuamente este espaço do ponto de vista ambiental. Queremos dotá-lo de uma biodiversidade cada vez mais rica e equilibrada. Criar dinâmicas biodiversas. Não se trata apenas de plantar árvores, mas de criar um ecossistema vivo, onde diferentes espécies, vegetais e animais, consigam coexistir e desenvolver-se naturalmente. É um trabalho que exige tempo, conhecimento e persistência.

O que significa, na prática, criar “dinâmicas biodiversas”?
Significa, antes de mais, intervir de forma consciente no território. Uma das nossas principais tarefas tem sido remover espécies invasoras, como eucaliptos, austrálias e acácias, que dominam o espaço e impedem o desenvolvimento de outras formas de vida. Ao libertarmos essas áreas, podemos introduzir espécies autóctones, que são mais adequadas ao ecossistema local. Neste momento já intervencionámos mais de 30 hectares. O resultado começa a ser visível: hoje conseguimos observar abelhas, joaninhas, diversos insetos e outros sinais claros de biodiversidade. Antes, isso não acontecia, porque as espécies invasoras não criam condições para esse equilíbrio natural.



Relativamente às espécies animais como as atraem para este espaço?
Na verdade, não somos nós que “atraímos” diretamente. O que fazemos é criar as condições para que a natureza funcione por si própria. Ao introduzirmos plantas adequadas, surgem insetos, que por sua vez atraem aves e outros animais. Temos observado uma cadeia natural muito interessante: aparecem besouros, aves, pequenos mamíferos, anfíbios como salamandras e rãs, e até aves de rapina. Tudo isto faz parte de um equilíbrio que se restabelece quando o habitat é adequado. A partir do momento em que libertamos o espaço das invasoras, a natureza encarrega-se do resto.

Sendo um grupo de 13 pessoas, sentem que são suficientes para o trabalho?
Sim, sem dúvida. Claro que mais pessoas seriam sempre bem-vindas, mas conseguimos ajustar o nosso trabalho à dimensão do grupo. Além disso, um dos nossos princípios é o acolhimento. Recebemos frequentemente escolas, grupos organizados e empresas que procuram atividades de voluntariado. Muitas vezes são essas iniciativas que nos ajudam a avançar com trabalhos mais exigentes. No fundo, não estamos limitados aos 13 elementos, somos um grupo aberto à comunidade.

Como podem as pessoas conhecer e participar neste projeto?
Utilizamos as redes sociais para divulgar o que fazemos e para convidar as pessoas a participar. Organizamos atividades abertas, como ações de plantação de árvores. Ainda recentemente promovemos uma iniciativa em que plantámos 430 árvores com cerca de 150 participantes. Houve também a colaboração da empresa PTLapse, que resultou na plantação de mais 50 árvores. Para além destes momentos, há muito trabalho de bastidores: identificamos áreas com potencial, contactamos proprietários e planeamos intervenções.

 

Os terrenos dos Moinhos de Jancido são públicos ou privados?
São maioritariamente privados. Existe uma parceria entre a Câmara Municipal de Gondomar e a Aprisof que abrange o percurso PR1, que é um trilho municipal. No entanto, fora dessa área, temos vindo a trabalhar diretamente com os proprietários. Já contactámos cerca de 50 e todos mostraram abertura para o projeto, autorizando a intervenção nos seus terrenos.

O risco de incêndio é uma preocupação?
Naturalmente que sim, mas tentamos não trabalhar com base no medo. Sabemos que as espécies invasoras aumentam esse risco, o que reforça a importância do nosso trabalho. Ainda assim, não encaramos essa possibilidade como um motivo para parar. Se acontecer, estaremos cá para agir e recuperar.

 

Com que regularidade desenvolvem atividades no local?
Temos como hábito reunir-nos todos os sábados à tarde. Durante a semana, um ou outro elemento vai ao terreno para adiantar tarefas mais específicas, o que nos permite aproveitar melhor o tempo quando estamos todos juntos.

O que falta fazer?
A verdade é que nunca falta nada para fazer. E quando parece que está tudo feito, encontramos novas ideias. Um exemplo recente foi a construção de um hotel para insetos, que além de útil do ponto de vista ecológico, também tem uma componente pedagógica.

Quantos moinhos já foram recuperados?
Já restaurámos dez moinhos.

O que motivou essa recuperação?
Os moinhos foram surgindo à medida que limpávamos o terreno. Muitos estavam completamente escondidos pela vegetação. À medida que os íamos descobrindo, percebemos que fazia sentido recuperá-los, porque fazem parte da identidade e da história de Jancido. Hoje temos oito moinhos agrupados e dois mais afastados. O último que restaurámos, há cerca de dois anos, é, na nossa opinião, um dos mais bonitos (sorri).

Têm apoios institucionais para este trabalho?
Sim, sobretudo ao nível da manutenção do trilho PR1. Existe um compromisso com a autarquia que nos dá algum suporte nesse âmbito.

O documentário sobre os Moinhos de Jancido teve impacto no projeto?
Teve um impacto muito positivo. O desafio lançado pelo Paulo Ferreira, com o cinema nos Moinhos e o documentário, ajudou-nos a ganhar visibilidade e a perceber que o nosso trabalho pode chegar mais longe. Ainda assim, nunca foi esse o nosso objetivo principal. O que sempre quisemos foi dar identidade à nossa aldeia e valorizar o nosso património.

Quais são os objetivos para o futuro?
Queremos continuar a apostar na recuperação ambiental e na valorização do território. Um dos nossos objetivos é, até 2030, intervir ao longo dos cerca de três quilómetros do percurso PR1 até à Ponte da Linha, reforçando a presença de espécies autóctones e reduzindo as invasoras. Paralelamente, queremos consolidar iniciativas como o cinema nos Moinhos e as caminhadas pedagógicas, e continuar abertos a novos desafios.

Que mensagem gostariam de deixar a quem visita o espaço?
Gostávamos que as pessoas, quando viessem cá, conseguissem desligar do ruído e ouvir mais a natureza. Esse é, talvez, o maior valor deste lugar.

 

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