Opinião Gonçalo Lixa

Os animais e a dor

A perceção de que o meu animal está com dor, pela sua relação indissociável com a qualidade de vida, é um tema fundamental e complexo.

A dor é uma experiência emocional, desagradável e pessoal, que compreende uma dimensão sensorial/ discriminativa (onde e quanto dói), motivacional/ afetiva (como dói e como isso afeta todo o corpo), e cognitiva/ evolutiva (influência da atitude e estado mental na perceção da dor).

Tal como com as pessoas, cada animal tem diferente tolerância ao mesmo estímulo/ sensação de dor, e diferentes formas de o expressar. Não esperamos (no geral) a mesma reação à picada com a agulha da vacina por parte de um pequeno Pinscher, comparativamente com um Labrador Retriever, por exemplo.

Em termos clínicos, normalmente utilizamos escalas, desenvolvidas ao longo de décadas de estudos, que nos ajudam a quantificar a dor de um animal, principalmente a dor aguda. Como exemplo temos a Glasgow Composite Measure Pain Scale (cão e gato) ou a Feline Grimace Scale (gato). Ambas podem ser facilmente encontradas online, podendo ser aplicadas (após alguma prática) por qualquer pessoa que esteja junto ao animal. Sabe relacionar a posição das orelhas do seu gato com o grau de dor que ele sente? E dos bigodes? É só aplicar as escalas!

Os resultados obtidos levarão depois a decisões clínicas, que poderão implicar, ou não, o uso de medicamentos para reduzir a dor que o animal sente. As classes de medicamentos mais usadas são os anti-inflamatórios não esteróides, opióides e, mais recentemente, os anticorpos monoclonais direcionados para o Nerve Growth Factor (NGF). Importantíssimo NUNCA usar ibuprofeno em cães/ gatos e NUNCA usar paracetamol em gatos. São altamente perigosos.

Os outras formas de minimizar a dor prendem-se com o enriquecimento ambiental e fisioterapia (exercício frequente, mas controlado, estímulo mental adequado), nutrição de qualidade, suplementação, e uso de terapias alternativas (como acupuntura, terapia com laser, etc).

Em algumas situações (como osteoartrose, patologia oral ou oncológica, por exemplo) a dor pode durar meses a anos, podendo tornar-se crónica (para sempre). Nesses casos o maneio multifatorial (administrando não só medicamentos), torna-se absolutamente fundamental para que o animal sofra o menos possível.

Para finalizar, acrescentar que uma vida com dor será sempre uma vida pior vivida. É nosso dever moral o de minimizar a dor do amigo que escolhemos para viver connosco. ■

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