O documentário Patagónia, da autoria e realização do gondomarense Paulo Ferreira, estreou a 17 de junho, na Alfândega do Porto. Nesta entrevista, o realizador explica o que o levou a regressar à Patagónia, as dificuldades das filmagens e a importância da conservação da natureza.
O que o levou a realizar um documentário sobre a Patagónia?
Todos os meus trabalhos têm como objetivo consciencializar as pessoas para a problemática ambiental. Procuro fazê-lo tanto em Portugal como no estrangeiro. Em 2018 estive na Patagónia para realizar um pequeno documentário, com cerca de 12 ou 13 minutos, focado no degelo de alguns glaciares e nas alterações climáticas. Não era um trabalho aprofundado sobre a natureza ou a vida selvagem, mas sim um vídeo que levasse as pessoas a refletir sobre as consequências das alterações climáticas. Entretanto estabeleci um protocolo com a SIC, através do qual a estação adquire os direitos de transmissão dos documentários que produzo com esta temática. Isso motivou-me a regressar e a concluir um documentário mais completo sobre a Patagónia.
Porque decidiu centrar este documentário nos pumas?
Quando estive na Patagónia, em 2018, praticamente não havia pumas no Parque Nacional Torres del Paine. Entretanto, estes animais começaram a ser reintroduzidos naquele território, que tem aproximadamente metade da área de Portugal. Regressei em 2026 com o objetivo de filmar os pumas e recolher outras imagens que tinha em mente desde a primeira viagem. Foi mais fácil porque já conhecia o território e tinha estabelecido contactos com pessoas locais, que facilitaram bastante o trabalho.
Foi fácil conseguir essas imagens?
Muito pelo contrário. Ao contrário do que acontece em muitos documentários internacionais, como os da BBC, os pumas da Patagónia não têm sistemas de localização por GPS nem coleiras de monitorização. São animais completamente selvagens e isso torna as filmagens muito mais exigentes. Houve dias em que caminhava seis ou sete quilómetros com todo o equipamento às costas porque alguém tinha avistado um puma numa determinada zona. Chegava ao local e, à última hora, o animal mudava de direção e já não passava ali. Para conseguir apenas dois minutos de imagens foi preciso permanecer vários dias no terreno.
O que mais o marcou no contacto com estes animais?
Os pumas são fascinantes. É um animal impressionante e olhar para eles através da objetiva permite perceber comportamentos muito semelhantes aos dos seres humanos. Recordo-me particularmente de uma fêmea, a Lenga. Quando viu um macho no topo da encosta demonstrou uma enorme preocupação com a cria, porque os machos podem matar crias que não são da sua ninhada. Foi possível perceber essa preocupação no olhar dela. Foi um momento muito marcante.
Houve outras espécies que o surpreenderam?
Sim. O pica-pau-gigante foi outra das grandes descobertas. É muito maior do que os pica-paus que conhecemos em Portugal, tem a plumagem escura e a cabeça vermelha. Vi-o pela primeira vez durante uma caminhada de cerca de 11 quilómetros. Quando apareceu, comecei a segui-lo para o fotografar e acabei por me perder no meio da floresta de lengas (risos). Foi um momento assustador, porque deixei de encontrar o trilho. Acabei por regressar, mas foi uma experiência que nunca mais esquecerei.
O que mudou na Patagónia entre 2018 e 2026?
Utilizei imagens das duas viagens no documentário. A primeira foi realizada no final do verão e a segunda no final do outono. Ao comparar os mesmos locais, percebe-se que existem diferenças muito significativas. Um exemplo é a Lagoa Azul. Em 2018 estava rodeada de lengas e, quando regressei, muitas dessas árvores tinham desaparecido. A transformação da paisagem foi evidente.
Que diferenças encontrou entre a forma como a natureza é preservada na Patagónia e em Portugal?
Na Patagónia existe uma grande preocupação com a conservação da natureza, sobretudo por parte das pessoas que vivem do turismo. Os operadores locais não querem recorrer a sistemas de localização dos animais porque isso facilitaria demasiado a sua observação e poderia atrair turismo de massas. O objetivo é preservar o equilíbrio natural e evitar uma pressão excessiva sobre os ecossistemas.
Qual foi a maior dificuldade durante as filmagens?
Sem dúvida, o esforço físico. Transportar todo o equipamento durante vários quilómetros em terrenos difíceis foi, provavelmente, o maior desafio ao longo da produção.
Depois da estreia na Alfândega do Porto, o documentário vai ser apresentado noutros locais?
Fui convidado para apresentar o documentário em Melres e também em Lisboa. Além disso, será posteriormente transmitido em televisão através da SIC.