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"Uma das nossas maiores dificuldades era a eliminação de vestígios fascistas na autarquia"

[caption id="attachment_7371" align="alignleft" width="300"]Serafim Gesta no Museu Mineiro de São Pedro da Cova / Foto: Pedro Santos Ferreira Serafim Gesta no Museu Mineiro de São Pedro da Cova / Foto: Pedro Santos Ferreira[/caption]

Serafim Gesta, 80 anos, fundou em fevereiro de 1975 o jornal “O Diálogo”, um periódico que retratou os principais acontecimentos políticos, sociais e culturais vividos na freguesia durante o Processo Revolucionário em Curso, após 40 anos de ditadura.  

Em que contexto político, económico e social surge o jornal “O Diálogo”, em São Pedro da Cova? Após o 25 de Abril de 1974, São Pedro da Cova era gerido por uma Junta de Freguesia que tinha sido nomeada no regime anterior. Uma das obrigações das Forças Armadas (FA) era reunir pessoas que fizessem cumprir o seu programa a nível local, através de brigadas de dinamização cultural enquadradas nas FA. Assim sendo, escolheram indivíduos reputados e da sua confiança política.

Eu e outros amigos tivemos que assumir perante as FA a garantia de eliminar despojos do fascismo em São Pedro da Cova. Uma das nossas maiores dificuldades era a eliminação de vestígios fascistas na autarquia, foi um processo muito difícil. Mais difícil ainda porque depois tínhamos que nomear pessoas para assumirem esses cargos e nós queríamos pessoas com um perfil dinâmico e cultural. Lá conseguimos nomear pessoas da nossa confiança e colocamo-las na frente da autarquia, mas foi um período complicado.

E como é que a liberdade chega à população? Numa segunda fase foi preciso informar as pessoas em relação aos seus direitos. Em São Pedro da Cova havia muita gente pobre, falida e dominada. Quando as minas começam a pagar indemnizações pagam com quase 40% de desvalorização e isso revoltou-nos.

Tivemos que criar órgãos de esclarecimento público que pudessem chegar às pessoas e é nesse âmbito que pensamos na criação deste jornal, “O Diálogo”, para dar voz a essa gente.

Como foi recebido o jornal? Foi muito bem recebido. A nossa única dificuldade era o financiamento. Entretanto, tinha surgido antes o jornal “O Democrata”, que foi uma ponte política para o 25 de Abril. No fundo, “O Diálogo” veio dar continuidade ao trabalho do jornal “O Democrata”, com uma ampla cobertura dada ao 22 de maio de 1975, que foi um clarão enorme na freguesia.

Nessa dia o povo descobriu os crimes que tinham sido cometidos nas minas. Foi aí que nasceu o Centro Revolucionário Mineiro (CRM) com estruturas próprias e verificaram-se grandes conquistas após esse acontecimento.

Como é que “O Diálogo” conseguiu impor-se na freguesia? Foi sobretudo através dos seus títulos e das notícias de proximidade. As notícias abrangiam a vida escolar, associativa e cultural da freguesia. Em 1976, o jornal destaca-se com o 1.º aniversário do CRM. Contudo, houve sempre um problema de financiamento e o jornal teve que chegar ao fim por falta de recursos. Até acabar foi sempre financiado por mim.

Julgo que depois deste jornal, sem contar com o boletim da Junta de Freguesia, São Pedro da Cova nunca mais teve um jornal da freguesia.

Qual era a tiragem do jornal? Eram impressos cerca de mil exemplares, porque quanto mais imprimisse mais dispendioso era. O jornal era distribuído nas escolas, coletividades e nos sindicatos.

Ainda assim, o jornal defendia uma ideologia política de esquerda... Não nego isso. Era um jornal de esquerda mas nunca foi um jornal de um partido.

Quando é que despertou para o jornalismo? Sempre fui uma pessoa que gostava de ler e escrever. Comecei a escrever para o jornal “Sopa dos Pobres” e depois passei a escrever para “A Voz de Ermesinde”, mais tarde escrevi para o “Correio do Douro” e para o “Comércio de Gondomar”. Em 1961, ainda na ditadura, eu e o Prof. Dr. Germano Silva formamos “A Voz Pedroense”. Sou investigador há 50 anos e continuo a estudar São Pedro da Cova em geral e o fenómeno das minas em particular.

Atualmente está patente no Museu Mineiro de São Pedro da Cova uma exposição temporária sobre o jornal “O Diálogo”. É um reconhecimento do contributo do jornal para a freguesia? Sem dúvida. O jornal foi um importante meio de esclarecimento popular e tornou-se um documento histórico da freguesia. Agora falta contar a história do 22 de maio de 1975. Eu quero contar essa história e até já posso dar o título do meu próximo livro: “A história de uma revolução”. Ninguém conhece as conquistas sociais e económicas que resultaram desse dia. Chegamos a ter reuniões com ministros e tivemos vitórias esmagadoras sobre a Companhia das Minas. Essa será a minha próxima história.

Podemos esperar uma biografia do Serafim Gesta (Mazola)? Está projetada para sair no próximo ano e o autor será o Daniel Vieira, presidente da União de Freguesias de São Pedro da Cova. O Daniel disse-me que queria fazer a minha biografia e eu deposito nele a minha confiança [risos].

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